dou meus punhos
pra ser amarrado por grilhão
se assim quisermas se quiser me soltar
veja lá!
que vou embora de corrente e tudo
e nem penso em avisaré meio que descaso meu:
dou meu corpo à prisão
e quando vou embora
levo a prisão, o vigia
e todos os detentos comigo
São 5 AM. Meu hálito ainda está com cheiro de álcool, forte, limpo, seco, e eu não lembro de ter bebido tanto. Deixei você deitada no meu peito, ainda ofegante, me fazendo carinho no cabelo enquanto meu corpo inteiro ainda tremia. Estamos sujos. Beijei você como quem beija a pele de um recém abortado, cuidando e preservando um amor que nunca aconteceu e nunca vai acontecer porque somos isso: dois corpos naturais que se completam. Amor em nada tem a ver com completude. Jamais sobraremos. Você poda minhas falhas com seu toque malicioso, e o jeito como você me segura e me sustenta dentro de você quase rasgando a minha pele. O jeito como você não se importa com a minha queda, com as minhas artificialidades que começam a surgir dentro de um corpo maduro e envelhecido pelas maneiras invisíveis e politicamente corretas que uso pra me matar. Você não se importa quando levanto da cama e sento no computador com uma dor insuportável no peito que a muito tempo deixou de ser tesão e suor. Só passa quando eu escrevo textos e mais textos sobre essa angústia que você não repara e também não repara… Talvez você ainda não saiba que o que levo dentro de mim é um pouco mais pesado do que o meu corpo jogado sob o seu. Eu não desejo as suas curvas e os seus poros molhados, eu não desejo as suas roupas espalhadas no chão e os fios de sangue que ficam nas minhas costas, não desejo seus sussurros e as nossas marcas roxas. A minha alma precisa de um pouco de loucura que não encontro em ninguém. O mínimo, o suficiente, aquilo que transborda na minha cama. Somos isso, apenas. Dois corpos naturais que se completam. Não há loucura alguma em ser humano. Não há loucura alguma no prazer que você me dá ao dormir ainda suada, enrolada nos meus lençóis. Também não há loucura nenhuma no vazio incrível e invencível que permanece após meus olhos voltarem pras órbitas… Mas há um pouco de loucura no choro que eu derramo quando você se vai e se esvai. Eu sei que você está indo embora, e eu choro sem saber o motivo. O motivo deveria ser você, mas não é. O não saber é ainda pior, acredite. Você poda todas as minhas falhas enquanto eu me submeto ao que você tem em si e não me é suficiente. Eu nunca estive tão próximo de mim assim, tão próximo de tanta coisa podre que amontei nesses anos de solidão plenamente suportável. Você se vira e adormece com as costas voltadas pra mim. Suas costas são lindas e insuficientes. Adormeci acreditando que é isso. É só e deliciosamente isso.
Cinzentos (via cinzentos)
Se ontem amei alguém na vida, hoje tirei do túmulo uma espécie de amor.
Se ontem amei alguém com cabelos e cheiros, unhas e sexo, lábios e beijos, olhos e sonhos, hoje descobri que o amor é feio e fede como um cadáver.
Não há ainda nesse mundo necrofilia que faça o que amei voltar a ser o que amo.
E por mais que eu chore, por mais eu peça, por mais que eu lamente por alguma coisa parecida com saudade, por mais que eu saiba que amei, sim, alguém na vida, eu jamais, de maneira alguma, diria que ainda amo alguma coisa na vida.
O amor sugere que eu ame
suas vísceras,
seus exames de fezes,
suas menstruações,
seu café açucarado,
suas doenças,
suas crises,
seus ossos,
seus fracassos,
seus miolos estourados,
seus bebês que jamais nasceram e apodrecem no seu útero,
seus membros engordurados,
suas dores de cabeça,
seu passado,
sua morte.
O amor sugere que eu ame tudo isso sozinho.
Fica em mim a vontade de invadir o cemitério, roubar o seu corpo e colocá-lo pra dormir no meu colo, enquanto seus olhos que já foram poesia reconquistam a vida através dos vermes que saem deles.
Hoje eu não amo, mas amei, sei que amei.
Mas se o amor é isso, a vida não é, a vida é crime, é pecado e, mais do que tudo, é sanidade.
O amor não espera nem Deus e nem justiça, e muito menos eu.
Se ontem amei alguém na vida,
hoje eu lavo as minhas mãos com sabonete antisséptico e álcool em gel.
Cinzentos (via cinzentos)
